|
"Na TV digital, todo mundo fala sobre o que pode ser feito. Poucos questionam o que deve ser feito". Esta frase, de Newton Cannito, do FICs, resume os debates sobre o II Seminário de Televisão Digital: Produção de Conteúdos no Ambiente de Convergência, que aconteceu semana passada na UFPE, em Recife. Organizado pela Federal Pernambucana e pela Globo Universidade, o evento aprofundou um debate começado ano passado, sobre os rumos da interatividade e da TV digital no Brasil, com um enfoque totalmente multidisciplinar. O evento foi organizado pela UFPE e pela Globo Universidade.
Na abertura do evento, Cannito, que é doutor pela ECA/USP e roteirista de novelas e seriados, como 9 mm, da Fox, destacou o desafio da produção de conteúdo para várias plataformas. Partindo do princípio que a experiência define a mídia, Cannito disse que as novas tecnologias sempre reforçam as principais características do conteúdo. "O cinema virou mais cinema com as novas tecnologias, como som e cor. A TV está virando mais TV com a digitalização e a alta definição". Para ele, não há risco de a TV ser engolida por outras mídias. Muito pelo contrário: "A TV é o que se faz dela, da forma como se usa. Quando se joga videogame, não é TV. Você desliga o game e volta a ver TV", explicou.
Além disso, ele não acredita que o conteúdo gerado pelos usuários possa efetivamente afetar o mercado da televisão. Ele usa dois argumentos para explicar o raciocínio: "Primeiro, parte-se do princípio de que todos querem gerar conteúdo. Isso não é verdade. Segundo, considera-se que todos os interessados em gerar conteúdo têm a capacidade de fazê-lo, o que também não é verdade. Uma coisa é conteúdo profissional, com credibilidade. Outra, bem diferente, são vídeos caseiros vistos porque são bonitinhos ou engraçados".
De certa forma, Emanuel Castro, diretor de novas mídias da TV Globo, corroborou essa visão em outra palestra, quando disse que a inclusão de conteúdos gerados pelo usuário na programação das emissoras é um modismo. No entanto, a TV Globo está buscando, de forma ainda incipiente, usufruir das novas mídias para agregar conteúdos a sua grade. "Não estamos conseguindo conversar com os jovens. Eles não assistem a nossa programação porque estão no Twitter, no Facebook. Precisamos incorporar essas ferramentas na nossa produção", explicou. Castro mostrou vários exemplos dessa nova abordagem da TV Globo, com destaque para o BCYOU (http://www.bcyou.com/), uma ferramenta de integração baseada em vídeo.
Apesar dessa guinada estratégica da emissora, Castro lembrou que a TV continua tradicional, sem muito enfoque nas novas mídias. "A maioria dos nossos profissionais foi formada e está habituada a trabalhar nas formas clássicas, onde o Twitter é um bicho estranho. Não é fácil mudar essa cultura". Apesar de considerar os vídeos gerados pelos usuários um modismo, ele concorda que quadros como o Bola Cheia/Bola Murcha do Fantástico, são exemplos de que o assunto deve ser tratado como um diferencial na programação. "Se tem alguém colocando no ar e está dando certo, precisamos colocar também", sintetizou.
Outro palestrante que apresentou uma visão nova e um pouco diferente da TV Globo foi Raymundo Barros, diretor de engenharia e responsável pelo desenvolvimento da interatividade na emissora. Ele discutiu se a broadbandTV (BBTV) representa uma ameaça ou uma oportunidade para o setor. Mostrando tecnicamente como funciona a TV pela internet acessível em aparelhos de televisão, Barros fez um paralelo com modelos de negócio e o middleware brasileiro Ginga. Para ele o modelo BBTV não é sustentável porque depende de uma infraestrutura gigantesca (uma diferente para cada fabricante de TV) e está baseado na divisão das receitas. "Não dividimos receita com HP para navegar na internet quando usamos um PC da HP. Por que dividiríamos receita com Samsung para acessar conteúdos pela TV dela?", questionou.
Além disso, Barros mostrou exemplos de interatividade desenvolvidos e em desenvolvimento dentro da emissora que mostram que os recursos do Ginga fazem tudo o que o BBTV faz e ainda conseguem agregar recursos. Para ele, projetos como o Canvas, da BBC, e o HBBTV (http://www.hbbtv.org/), da EBU, não são parâmetro e nem são viáveis para o Brasil. O Canvas é um projeto privado da BBC, voltado ao mercado inglês. Já o HBBTV é mais um remendo visando recuperar o combalido MHP, middleware europeu totalmente fora do mercado.
Ele ressaltou que não está descartado o oferecimento de vídeos do portal G1 via BBTV, desde que se chegue a um modelo que incorpore essa audiência aos números da TV. Além disso, a infraestrutura de transmissão precisa ser única e viável financeiramente.
Questionado por uma avaliação sobre as experiências com interatividade feitas pela emissora, Barros afirmou que até o momento elas não tem tido um retorno muito positivo. Ele acredita que o mercado brasileiro ainda precisa evoluir muito para criar e consolidar modelos sustentáveis para a interatividade. "Precisamos de idéias inovadoras e criativas, que contemplem o que o telespectador quer e precisa", afirmou.
Completando o tema, Carlos Ferraz, diretor do CÉSAR e professor do Centro de Informática da UFPE, comparou o oferecimento de conteúdos pela web pela TV. Para ele, a web não tem escalabilidade (capacidade de atender qualquer número de usuários com a mesma qualidade de serviço) para oferecer conteúdos em fluxo em larga escala. "O número de usuários da BBTV sempre será limitado pela banda disponível. Por outro lado, o número de telespectadores da televisão é infinito". Explicando, é inimaginável uma modelo de BBTV que chegue hoje a 50 milhões de pessoas, por exemplo, com qualidade de vídeo boa. Por outro lado, 50 milhões de pessoas é um público facilmente atingível pela TV, com vídeo em alta definição.
O evento mostrou que o debate sobre a TV digital está evoluindo no Brasil. Aos poucos temas como interatividade e produção para alta definição estão dando lugar a debates sobre exploração dos conteúdos e modelos de negócios para a convergência tecnológica digital. As palestras de profissionais da TV Globo são relevantes porque mostram os rumos que a emissora está tomando, e que mais cedo ou mais tarde, são seguidos pela concorrência. Além disso, pode-se perceber claramente que emissora não está parada no tempo e que a convergência já não assusta mais. Há planos e projetos para tirar proveito das novas tecnologias no modelo atual de publicidade.
Do ponto de vista acadêmico, o evento mostrou novamente a necessidade da integração entre pesquisadores e profissionais do mercado. A área da comunicação tem se especializado em discussões inúteis e sem fundamentação real, sem paralelo com as necessidades mercadológicas. Questionei Newton Cannito, Raymundo Barros sobre a formação acadêmica das universidades. Cannito não mediu palavras quando disse que não formação de profissionais criativos, que saibam escrever para todas as plataformas. Para ele, essa é a principal deficiência do mercado hoje e a maior dificuldade no recrutamento de pessoal na empresa dele. Já Barros salientou que o SBTVD aproximou a área da engenharia das emissoras com as universidade. "Hoje tem estudantes de engenharia que sonham em trabalhar na engenharia da TV Globo, algo que não acontecia há alguns anos", explicou.
E para quem está interessado em fazer mestrado ou doutorado no Centro de Informática da UFPE, Carlos Ferras dá a dica: "Estamos buscando projetos que melhorem a experiência do usuário com essas tecnologias, que facilitam o uso. A usabilidade está no centro dos nossos interesses". |